quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Os fílosofos é que tinham que governar as cidades?


Ideal, irreal, pólis perfeita, dentre tantos outros adjetivos - é dessa forma que a cidade socrático-platônica perfila-se no horizonte filosófico: qual uma estrela distante.
O filósofo Platão [428?-348 a.C], expressando o seu desencanto, ou melhor, a sua visão e o seu juízo sobre a decadência da pólis grega – no conjunto de sua obra -, constrói, então, o projeto de uma cidade modelo, uma cidade paradigmática, na qual, em especial, toda causa de corrupção estaria fadada à extinção.
Consoante à visão platônica, existe, para além do plano dos fenômenos sensíveis, um outro mundo: uma espécie de “planeta” povoado de realidades constituídas pelos mesmos atributos que existem em nosso exterior ou interior. Estas “realidades” seriam as idéias perfeitas (“eidos”). Elas não representariam, apenas, simples formas abstratas do pensamento, mas seriam realidades objetivas com atributo de eternidade (isto significa realidade para Platão!). Nesse caso, as coisas terrenas não passariam de meras cópias dessas idéias perfeitas. As coisas terrenas seriam cópias impregnadas de imperfeições e, sobretudo, passageiras; elas habitam o “Mundo das Sombras”, em contraponto ao “Mundo Inteligível” ou ao “Mundo das Idéias”, donde procede o foco luminoso e transcendente da idéia do Bem Supremo.
Todavia, caso queiramos bem definir o que caracteriza tal atitude filosófica platônica, os obstáculos multiplicam-se, pois, como pode o perfeito se perfazer no irreal? E como pode o irreal ser perfeito e ideal, isto é, o “Mundo Inteligível” ou o “Mundo das Idéias”? De certo, nos confrontamos com um paradoxo! com uma visão fulgurante! ou com um êxtase místico?!
Com efeito, nada mais que um dos nós do pensamento platônico... Entretanto, as possíveis respostas para tais questões - que geralmente latejam informuladas na esfera da noção comum – devem ser iluminadas por aquilo que se lê, de corpo inteiro, nas páginas de “A República”, a obra que, sem sombra de dúvidas, é a mais representativa de Platão, auxiliando-nos a esclarecer, sobretudo, o que se entende por cidade platônica.
O que significa, exatamente, para Platão, o Estado? O Estado, para Platão, versa, em última instância, sobre a alma do homem. A “Alegoria da Caverna” e, por extensão, toda a filosofia platônica, ambas tomam como ponto de partida o conceito (idéia que expressa a essência das coisas), verdadeiro objeto da filosofia para Sócrates [469-399 a.C], mestre de Platão – cujas lições Platão ouviu por muito tempo, e mais tarde as transcreveu. Entretanto, o Sócrates de Platão (Sócrates nada deixou por escrito), apesar de colocar em ação os princípios paradigmáticos socráticos, divergiu do mestre quando buscou relacionar o conceito com a realidade.
Já foi dito que a máxima confirmação do filósofo é o aluno que se tornou maior do que o mestre – com efeito, sempre que o aluno seja guiado pelo amor ao verdadeiro e ao Bem. Bem a propósito, quanto a Platão pois, diferentemente de Sócrates, que acreditava que o conhecimento intelectivo derivava do mundo sensível mediante o diálogo, isto é, da e pela linguagem, para Platão, o conhecimento intelectivo não poderia derivar do mundo sensível, haja vista o sentidos representarem um obstáculo rumo ao conhecimento da verdadeira realidade. Tal diferença de perspectiva é considerável! pois, Platão, nesse aspecto, ao se opor a Sócrates, contradiz o mestre, porque Platão entende que a linguagem, um dos elementos constitutivos da realidade do mundo sensível, é grávida de enganos, mentiras, ilusões, perigos e outros que tais.
Compreenderemos melhor o alcance dessa diferença ao lançarmos vistas sobre a escritura da célebre “Alegoria da Caverna” - inscrita num dos textos mais famosos de Platão, isto é, o “Livro VII” in “A República”.
Podemos dividir as passagens - quanto à ascese do humano rumo ao conhecimento perfeito - da referida alegoria em quatro episódios:
. Primeiro episódio = como numa morada subterrânea, em forma de caverna, os prisioneiros estão acorrentados, imobilizados, sem poder mover a cabeça; eles apenas observam as sombras das marionetes que desfilam em uma parede. Os prisioneiros as tomam por seres verdadeiros e crêem ouvi-las, quando, na verdade (isto é, na realidade), ouvem as vozes de carregadores ou de titiriteiros.
. Segundo episódio = quando um dos cativos é libertado e obrigado, de súbito, a se erguer, andar e olhar para a luz; deslumbrado pela luz do fogo, ele é forçado a olhar as marionetes, que passam por cima do muro.
. Terceiro episódio = daí o arrastam à força pelo áspero e íngreme aclive, e não o soltam antes de o lançar para a luz do verdadeiro fogo, isto é, o Sol; o cativo é, a princípio, cegado pela luz, tornando-se incapaz de observar o que, agora, são os “seres reais”. Contudo, aos poucos, ele vai se adaptando. Contempla as sombras e os reflexos, depois os próprios seres que projetam essas sombras. Ele se encontra no “Mundo das Idéias”.
Quarto episódio: seu olhar eleva-se em direção ao Sol. Ele conclui que esse é que produz a vida, as estações e os anos, e governa, também, o plano visível, e o último é tudo aquilo que antes via, de algum modo, de maneira distorcida, quando se encontrava sentado lá no fundo da caverna. Desse modo, relembrando da primeira morada e da falsa sabedoria ou não-sabedoria lá existente, além dos companheiros de cárcere, ele se considera feliz pela mudança, porém sente dó dos outros. Assim, ele é forçado a retornar ao fundo da caverna e comunicar aos companheiros a sua descoberta, com a finalidade de livrar das ilusões os que estão acorrentados.
Tarefa difícil! O amor à unidade de Verdade e de Bem. Risco de morte! Não foi isso que aconteceu a Sócrates? Por quê? Porque a filosofia é amor pelo valor supremo, conduzido pela unidade do verdadeiro saber e do bom comportamento do homem. Enfim: a filosofia desmistifica, porque o sujeito (dotado de Razão), pleno de amor ao saber, contrasta com a ignorância, ou melhor, com a cegueira e a ingenuidade da desrazão dos prisioneiros encerrados no fundo da caverna. Desse modo, o antigo prisioneiro, agora tornado filósofo, faz valer (dirigido pela idéia do Verdadeiro e do Bem) a univocidade do discurso racional, para poder espantar-se e confessar o seu próprio espanto: “_NADA SEI!”; despertando assim do seu sono dogmático.
Eis em Sócrates, consoante escritos de Platão, a verdadeira dramatização da ascese do conhecimento. Tal é a dimensão pedagógica da filosofia platônica.
De outra parte, se anteriormente afirmamos que a filosofia é tarefa difícil, objetivando, no momento, contemporizar nossa reflexão, podemos asseverar, em conjunto com a filósofa do cotidiano Agnes Heller, que a filosofia tornou-se tarefa ainda mais difícil no mundo atual, haja vista a filosofia encontrar-se inserida na divisão social do trabalho. Como se isto já não bastasse, um agravante: do ponto de vista de Heller, desafortunadamente, em nossa modernidade, a filosofia, que não é uma profissão, tornou-se uma profissão! Noutras palavras, a objetivação filosófica - ou seja, as perguntas primeiras da autêntica filosofia, tais como: _ Que é isto? _ Como é isto? _ Por que deve ser assim? - eclipsou-se diante do caráter de “profissão” que adquiriu o autêntico ato do filosofar, em última instância, do pensar. Daqui, segue abaixo, em palavras textuais, a lúcida reflexão da filósofa húngara Agnes Heller sobre o exílio imposto ao legítimo filósofo moderno, porque dissociado de sua verdadeira tarefa:

“Com poucas exceções, o filósofo hoje só pode ser ‘mestre’ se é ‘professor’. E, enquanto tal, tem de se adaptar às exigências da divisão do trabalho encarnada na instituição, bem como às expectativas da ‘corporação profissional’. A sua tarefa filosófica consiste em formar a capacidade de sentir espanto, de desenvolver automaticamente o pensamento; consiste em provocar a ‘elevação’, no compromisso irônico com o ‘não sei nada’. Por outro lado, essa tarefa contrasta com a instância ‘profissional’ de ampliar o ‘saber positivo’ [isto é, técnico], exigência inteiramente incompatível com o irônico ponto de partida representado pelo ‘não sei nada’ (...).”

Entretanto, uma saída na trilha do pensamento de Heller:

“O que é difícil não é, contudo, impossível. Dever do filósofo (...) é viver segundo a sua filosofia; ele deve assumir o risco do conflito com a ‘profissão’, com a divisão do trabalho que priva a filosofia de sua eficácia, de sua função específica, de seu caráter democrático (...) Quem teme esse conflito melhor se escolhesse ser sapateiro.”

Após tais considerações, reflitamos sobre a questão formulada pela professora Marilena Chauí: a filosofia representa risco de morte?
Desafortunadamente, podemos afirmar: _ SIM ! pois o perigo existe e é permanente.
A “Alegoria da Caverna” ou o “Livro VII” d’ “A República”, de Platão, possui múltiplas dimensões; além da forte conotação pedagógica que nele perpassa, além de em toda “A República” (o título é enganador, pois o referido texto é mais um tratado sobre a educação do que propriamente um tratado político), a “Alegoria...” também pode ser apreciada como uma ascese religiosa, ou um tratado filosófico, científico ou político que, consoante o contexto de “A República”, certamente não permite que tais considerações venhamos a negligenciar.
Nesse sentido, aquele que se liberta do fundo da caverna, isto é, das ilusões, conhece a “Idéia Suprema do Bem”), elevando-se à visão da autêntica realidade, e é, por fim, o rei-filósofo que pode e que deve governar a pólis ideal, com a finalidade de libertar os outros prisioneiros das trevas ou da caverna. É nesse sentido que o Estado, em Platão, versa, em última análise, sobre a alma do homem, como já afirmamos anteriormente. Primeiro: porque existe a possibilidade de sair da prisão. Segundo: porque todo o vigor da “Alegoria da Caverna” está justamente em mostrar que se trata de uma mudança essencial na vida humana. Ocorre, na verdade, uma transfiguração da própria alma, pois o contato efetivo com a “Idéia do Bem” é fonte de possibilidade de “alétheia”, isto é, de desvelamento. Nas palavras de Platão:

“(...) quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la (...). Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a idéia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; (...) e que é preciso vê-la para ser sensato na vida particular e pública (...).

Em contrapartida, claro está que “a novidade” em Platão pretendia eliminar uma tradição anterior, ou os “males do passado” (expulsão dos poetas) e do presente (expulsão, sobretudo dos sofistas) da pólis ideal. E pretendia fazê-lo por intermédio de uma arte de ensinar constituída, nas palavras do historiador da filosofia Châtelet, por “disciplinas despertadoras”, as quais permitissem ao futuro governante, isto é, o rei-filósofo, “praticar o inteligível”. Platão busca a sistematização dos saberes (na verdade, a “Alegoria da Caverna” trata-se do primeiro registro de confecção de um currículo de disciplinas, no mundo ocidental. Antes disso, ou de Platão, os saberes encontravam-se diluídos tanto na mitologia quanto na filosofia) para formar aqueles que querem sair da caverna. Daí a importância da aritmética, da geometria, da astronomia, da música, dentre outros saberes, até que se alcance o “último saber” do currículo platônico, isto é, a dialética (na definição socrático-platônica = a arte do discurso e do diálogo); o referido saber auxilia os indivíduos a elevarem-se dos conhecimentos sensíveis (inscritos no mundo da caverna ou no mundo das ilusões ou no mundo das “doxas”, isto é, das meras opiniões) aos conhecimentos inteligíveis (inscritos no “Mundo Perfeito” ou no “Mundo Inteligível” ou no “Mundo das Idéias”) - alcançáveis pela atividade da contemplação, isto é, do pensamento. Nesse caso, a dialética socrático-platõnica auxilia o espírito a odiar a mentira e o erro. Assim, consoante tal verdade, perigo de morte! numa pólis regida por cidadãos corruptos.
Por fim, a pedagogia, segundo Platão, seria esse lado da filosofia, ou consoante as palavras da professora Marilena Chauí:

“Pedagogia e filosofia, destinadas a liberar o espírito das sombras da caverna, pô-lo em contato com a luz fulgurante do Bem, do belo. Ensinar era dividir a palavra-diálogo com aqueles que já sabem, embora ainda não o saibam...”,

porque o verdadeiro conhecimento é uma reminiscência – a alma racional é livre. Em punição por algum delito, contudo, guarda a lembrança (reminiscências) das idéias contempladas na encarnação anterior (conceito de metempsicose em Platão!) e que, pela percepção, faz voltar à memória. Isto esclarece a maiêutica (parto das idéias) socrática.
Depois de tudo isso, esses homens perfeitos estão prontos para assumir as funções mais elevadas da vida pública. São, afinal, os reis-filósofos, que irão governar a pólis ideal, libertando a espécie humana de toda corrupção. Assim, o Estado Ideal de Platão deve ser entregue aos filósofos.


BIBLIOGRAFIA

BRANDÃO, Carlos R. (et al) “O Educador: Vida e Morte”. 8 ed. Graal: Rio de Janeiro, 1988.*

CHÂTELET, François. “A Filosofia Pagã” .Tradução José A.Furtado. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

CHAUÍ, Marilena. “O Educador: Vida e Morte”. In BRANDÃO, Carlos R. (et al) (vide acima*).

HELLER, Agnes. “A Filosofia Radical”. Tradução Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Brasiliense, 1983.

NOVAES, Adauto (et al) “O Olhar”. São Paulo: Cia das Letras, 1988.

PLATÃO. “A República”. 5 ed. Tradução Maria Helena da R. Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1987.




PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Esperança


Esperança

Mário Quintana


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A sexualidade Européia

Várias observações que tenho feito levam-me a concluir que o europeu, como um padrão geral, não tem muito tesão. Não tem o fogo sexual que arde no povo brasileiro. A sexualidade aqui no velho mundo é vista de uma forma natural, natural até demais! Percebe-se isso também na maior quantidade de espaços de nudismo que se vê por essas bandas, a nudez é normal. O nu não é encarado com tesão sexual e, sim, como um desprendimento dos valores sociais. Mesmo a forma como as pessoas por vezes se tocam, como dançam a imitar uma relação sexual, como batem uns nas bundas dos outros sem a menor segunda intenção. As pessoas não se excitam com o toque e as mulheres não se incomodam de ser tocadas, já que o toque não é um toque de desejo. No Brasil, por vezes o toque parece não conter desejo, mas contém. Aqui, não contém mesmo.

Os homens europeus não comem as mulheres com os olhos, não sentem o sangue ferver ao observarem mulheres espetaculares nas ruas, não viram seus pescoços para verem as bundas delas. As mulheres mais lindas passam tranqüilamente, vêm e vão pelas ruas com decotes e mini-sais sem receberem cantada alguma, assobios ou buzinadas. Aqui a conquista do sexo oposto é menos física e sexual, ela se dá mais na conversa, na observação de valores e idéias comuns, a conquista é mais intelectual.

Parece-me que o europeu vê o sexo mais como a consumação de uma relação amorosa. É claro que sentem prazer no sexo, mas não estão dispostos a fazer sexo com qualquer pessoa, embora às vezes façam e encarem isso com uma completa naturalidade. Uma linda garota me disse certa vez que se sentia mal pois, de onde vinha, "ninguém me olhava com desejo" e, por isso, gostava do estilo latino, gostava dos espanhóis e portugueses. Nós, latinos, somos muito sexuais. Eu me sinto muito sexual aqui.

Além disso, os europeus não têm muito ciúmes e têm a impressão correta de que o relacionamento é algo que está muito além da fidelidade. As relações são mais estáveis por serem baseadas em afinidades, não em corpos e sexo. Ao mesmo tempo e na mesma linha de observação, não se vê com maus olhos mulheres que ficam com vários rapazes ou fazem sexo deliberadamente, a torto e a direito, apesar de serem estes exemplares bastante incomuns. Estas não são tachadas de galinhas, prostitutas, piranhas ou coisa do gênero. Percebo até mesmo uma certa inveja das outras mulheres por estas, as primeiras parecem dar valor à liberdade que as segundas conseguem ter, ao desprendimento moral e social que alcançam.

Sexo na Europa não é tabu, é natural e parece de pior qualidade também. Eles fazem sexo como espirram, dá a impressão de nunca irão entender aquela magia e ânsia que sentimos ao despirmos uma mulher pronta para o sexo.
Texto extraído do blog TRAGO FILOSOFIA.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Onde fica a Filosofia?


Vejo na internet perguntas sobre onde ela fica, pegando carona nesta pergunta onde fica a filosofia será que a resposta poderia ser em lugar algum igual ao da internet tenho certeza que não, porque a filosofia é metamórfica está mudando sempre de direção na mente do ser humano entã para mim ela fica em toda pessoa que pensa ou será que estou errado?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

VIVER A VIDA!


 Sabe aquela sensação de plenitude, de sentir-se completo? De repente acordar e perceber que não precisamos de nada nem ninguém para sermos felizes? Experimentar aquele sentimento interno de que o universo basta. O pôr do sol, o céu, as nuvens, estrelas, a terra, a lua, o calor, a natureza, o respirar e inspirar... Suspirar! Isso tudo somos NÓS?

Sim! Especialmente quando nos permitimos viver com esse propósito parte de um algo muito maior. Maior do que qualquer relação que possamos sequer sonhar... Deixamos de ser parte para nos tornar um TODO. Passamos a viver como se ESTAR fosse igual a SER... Bem, é possível! Saiba que sim.

Há vida, sim, dentro de qualquer relacionamento e antes ou depois de qualquer relação. De qualquer rompimento. Somos verdadeiramente mais quando nos permitimos simplesmente existir. E, nesses momentos, SER será sempre mais que TER.

Quando pensamos que TEMOS o outro enlouquecemos por um amor não sadio. Escravizamo-nos e passamos a não querer incomodar. Não poder aparecer. Não poder existir... Tornamo-nos quase invisíveis e até porque não insensíveis... Deixamos de apreciar a vida para apreciar a outro. Incrível e triste.

Quantos de nós não agimos assim o foco no outro. O amor desbalanceado e pronto! Estamos lá sem nada. Famintos, desesperados, esperando por um tipo de alimentação que, infelizmente, não tem como vir de fora. Não tem como vir da fonte que escolhemos e (imaginamos) sem a qual não existiremos...

Anulação

Então, quando assim, nessa situação de quase total anulação, não há céu, não há sol, não há nuvens, não há nada no entorno que nos toque... Nada ao redor que possa nos inspirar e tirar do "marasmo"...

Fica, então, a pergunta: o que é melhor? Morrer de amor? Ver-se em uma situação limite de não existir para encontrar uma história ou abster-se desse mundo complexo das relações e contemplar o mar, a areia, o azul, a imensidão que está a nossa volta?

Quero crer que nem tanto céu, nem tanta terra... O caminho é sempre mesmo: o caminho do meio, o equilíbrio. Aquele que nos permite viver e amar. Viver toda a plenitude e, mesmo sabendo-se completos,encontrar espaço e tempo para também incluir o outro.

Acordado(a)

Para fazer isso, é preciso permanecer acordados, presentes, donos dos nossos sonhos, desejos e objetivos. Estar com outro sem perder o sentido do SER. Ser melhor a cada dia que passa. Ser único porque assim viemos. Estar no relacionamento e viver a vida. Aproveitar com ou sem o outro cada novo amanhecer. Manter-nos, afinal, abertos ao milagre da vida. Às possibilidades, às oportunidades, permanecer com a auto-estima elevada. O espírito leve. A alma quieta... Relacionamentos fazem parte não são em si TUDO.
  

domingo, 13 de setembro de 2009

FILOSOFIA DO BUDISMO


O Budismo é uma filosofia de vida baseada integralmente nos profundos ensinamentos do Buda para todos os seres, que revela a verdadeira face da vida e do universo.

Quando pregava, o Buda não pretendia converter as pessoas, mas iluminá-las. É uma religião de sabedoria, onde conhecimento e inteligência predominam. O Budismo trouxe paz interior, felicidade e harmonia a milhões de pessoas durante sua longa história de mais de 2.500 anos.

O Budismo é uma religião prática, devotada a condicionar a mente inserida em seu cotidiano, de maneira a leva-la à paz, serenidade, alegria, sabedoria e liberdade perfeitas. Por ser uma maneira de viver que extrai os mais altos benefícios da vida, é freqüentemente chamado de "Budismo Humanista".
O Buda

O Budismo foi fundado na Índia, no séc. VI a.C., pelo Buda Shakyamuni. O Buda Shakyamuni nasceu ao norte da Índia (atualmente Nepal) como um rico príncipe chamado Sidarta.

Aos 29 anos de idade, ele teve quatro visões que transformaram sua vida. As três primeiras visões – o sofrimento devido ao envelhecimento, doenças e morte – mostraram-lhe a natureza inexorável da vida e as aflições universais da humanidade. A quarta visão — um eremita com um semblante sereno – revelou-lhe o meio de alcançar paz. Compreendendo a insignificância dos prazeres sensuais, ele deixou sua família e toda sua fortuna em busca de verdade e paz eterna. Sua busca pela paz era mais por compaixão pelo sofrimento alheio do que pelo seu próprio, já que não havia tido tal experiência. Ele não abandonou sua vida mundana na velhice, mas no alvorecer de sua maturidade; não na pobreza, mas em plena fartura.

Depois de seis anos de ascetismo, ele compreendeu que se deveria praticar o "Caminho do Meio", evitando o extremo da auto-mortificação, que só enfraquece o intelecto, e o extremo da auto-indulgência, que retarda o progresso moral. Aos 35 anos de idade (aproximadamente 525 a.C.), sentado sob uma árvore Bodhi, em uma noite de lua cheia, ele, de repente, experimentou extraordinária sabedoria, compreendendo a verdade suprema do universo e alcançando profunda visão dos caminhos da vida humana. Os budistas chamam essa compreensão de "iluminação". A partir de então, ele passou a ser chamado de Buda Shakyamuni (Shakyamuni significa "Sábio do clã dos Shakya"). A palavra Buda pode ser traduzida como: "aquele que é plenamente desperto e iluminado".
A fundação do budismo

O Buda não era um deus. Ele foi um ser humano que alcançou a iluminação por meio de sua própria prática. De maneira a compartilhar os benefícios de seu despertar, o Buda viajou por toda a Índia com seus discípulos, ensinando e divulgando seus princípios às pessoas, por mais de 45 anos, até sua morte, aos 80 anos de idade. De fato, ele era a própria encarnação de todas as virtudes que pregava, traduzindo em ações, suas palavras.

O Buda formou uma das primeiras ordens monásticas do mundo, conhecida como Sangha. Seus seguidores tinham as mais variadas características, e ele os ensinava de acordo com suas habilidades para o crescimento espiritual. Ele não exigia crença cega; ao contrário, adotava o "venha e experimente você mesmo", atitude que ganhou os corações de milhares. Sua, era a senda da autoconfiança, que requeria esforço pessoal inabalável.

Após a morte de Shakyamuni, foi realizado o Primeiro Concílio Budista, que reuniu 500 membros, a fim de coletar e organizar os ensinamentos do Buda, os quais são chamados de Dharma. Este se tornou o único guia e fonte de inspiração da Sangha. Seus discursos são chamados de Sutras. Foi no Segundo Concílio Budista em Vaishali, realizado algumas centenas de anos após a morte do Buda, que as duas grandes tradições, hoje conhecidas como Theravada e Mahayana, começaram a se formar. Os Theravadins seguem o Cânone Páli, enquanto os Mahayanistas seguem os sutras que foram escritos em sânscrito.
Budismo chinês

Os ensinamentos do Buda foram transmitidos pela primeira vez, fora da Índia, no Sri Lanka, durante o reinado do Rei Ashoka (272 – 232 a.C.). Na China, a história registra que dois missionários budistas da Índia chegaram na corte do Imperador Ming no ano 68 d.C. e lá permaneceram para traduzir textos budistas. Durante a Dinastia Tang (602 – 664 d.C.), um monge chinês, Hsuan Tsang, cruzou o Deserto Ghobi até a Índia, onde reuniu e pesquisou sutras budistas. Ele retornou à China dezessete anos depois com grandes volumes de textos budistas e a partir de então passou muitos anos traduzindo-os para o chinês.

Finalmente, a fé budista se espalhou por toda a Ásia. Ironicamente, o Budismo praticamente se extinguiu na Índia em, aproximadamente, 1300 d.C. Os chineses introduziram o budismo no Japão. A tolerância, o pacifismo e a equanimidade promovidos pelo Budismo influenciaram significativamente a cultura asiática. Mais recentemente, muitos países ocidentais têm demonstrado considerável interesse pelas religiões orientais e centenas de milhares de pessoas vêm adotando os princípios do Budismo.
Ensinamentos do Buda

O Buda foi um grande professor. Ele ensinou que todos os seres vivos possuem Natureza Búdica idêntica e são capazes de atingir a iluminação através da prática. Se todos os seres vivos têm o potencial de tornar-se iluminados, são todos, portanto, possíveis futuros Budas. Apesar de haver diferentes práticas entre as várias escolas budistas, todas elas abraçam a essência dos ideais do Buda.
Karma e a Lei de Causa e Efeito

Uma pessoa é uma combinação de matéria e mente. O corpo pode ser encarado como uma combinação de quatro componentes: terra, água, calor e ar; a mente é a combinação de sensação, percepção, idéia e consciência. O corpo físico — na verdade, toda a matéria na natureza – está sujeito ao ciclo de formação, duração, deterioração e cessação.

O Buda ensinou que a interpretação da vida através de nossos seis sensores (olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente) não é mais do que ilusão. Quando duas pessoas experimentam um mesmo acontecimento, a interpretação de uma, pode levar à tristeza, enquanto a da outra, pode levar à felicidade. É o apego às sensações, derivadas desses seis sentidos, que resulta em desejo e ligação passional, vida após vida.

O Buda ensinou que todos os seres sencientes estão em um ciclo contínuo de vida, morte e renascimento, por um número ilimitado de vidas, até que finalmente alcancem a iluminação. Os budistas acreditam que os nascimentos das pessoas estão associados à consciência proveniente das memórias e do karma de suas vidas passadas. "Karma" é uma palavra em sânscrito que significa "ação, trabalho ou feito". Qualquer ação física, verbal ou mental, realizada com intenção, pode ser chamada de karma. Assim, boas atitudes podem produzir karma positivo, enquanto más atitudes podem resultar em karma negativo. A consciência do karma criado em vidas passadas nem sempre é possível; a alegria ou o sofrimento, o belo ou o feio, a sabedoria ou a ignorância, a riqueza ou a pobreza experimentados nesta vida são, no entanto, determinados pelo karma passado.

Neste ciclo contínuo de vida, seres renascem em várias formas de existência. Há seis tipos de existência: Devas (deuses), Asuras (semideuses), Humanos, Animais, Pretas (espíritos famintos) e Seres do Inferno. Cada um dos reinos está sujeito às dores do nascimento, da doença, do envelhecimento e da morte. O renascimento em formas superiores ou inferiores é determinado pelos bons ou maus atos, ou karma, que foi sendo produzido durante vidas anteriores. Essa é a lei de causa e efeito. Entender essa lei nos ajuda a cessar com todas nossas ações negativas.
Nirvana

Através da prática diligente, do proporcionar compaixão e bondade amorosa a todos os seres vivos, do condicionamento da mente para evitar apegos e eliminar karma negativo, os budistas acreditam que finalmente alcançarão a iluminação. Quando isso ocorre, eles são capazes de sair do ciclo de morte e renascimento e ascender ao estado de nirvana. O nirvana não é um local físico, mas um estado de consciência suprema de perfeita felicidade e liberação. É o fim de todo retorno à reencarnação e seu compromisso com o sofrimento.
O conceito de sofrimento

O Buda Shakyamuni ensinou que uma grande parcela do sofrimento em nossas vidas é auto-infligido, oriundo de nossos pensamentos e comportamento, os quais são influenciados pelas habilidades de nossos seis sentidos. Nossos desejos – por dinheiro, poder, fama e bens materiais – e nossas emoções – tais como, raiva, rancor e ciúme – são fontes de sofrimento causado por apego a essas sensações. Nossa sociedade tem enfatizado consideravelmente beleza física, riqueza material e status. Nossa obsessão com as aparências e com o que as outras pessoas pensam a nosso respeito são também fontes de sofrimento.

Portanto, o sofrimento está primariamente associado com as ações de nossa mente. É a ignorância que nos faz tender à avidez, à vontade doente e à ilusão. Como conseqüência, praticamos maus atos, causando diferentes combinações de sofrimento. O Budismo nos faz vislumbrar maneiras efetivas e possíveis de eliminar todo o nosso sofrimento e, mais importante, de alcançar a libertação do Ego do ciclo de nascimento, doença e morte.
As quatro nobres verdades e o nobre caminho óctuplo

As Quatro Nobres Verdades foram compreendidas pelo Buda em sua iluminação. Para erradicar a ignorância, que é a fonte de todo o sofrimento, é necessário entender as Quatro Nobres Verdades, caminhar pelo Nobre Caminho Óctuplo e praticar as Seis Perfeições (Paramitas).

As Quatro Nobres Verdades são:

1. A Verdade do Sofrimento.

A vida está sujeita a todos os tipos de sofrimento, sendo os mais básicos nascimento, envelhecimento, doença e morte. Ninguém está isento deles.

2. A Verdade da Causa do Sofrimento.

A ignorância leva ao desejo e à ganância, que, inevitavelmente, resultam em sofrimento. A ganância produz renascimento, acompanhado de apego passional durante a vida, e é a ganância por prazer, fama ou posses materiais que causam grande insatisfação com a vida.

3. A Verdade da Cessação do Sofrimento.

A cessação do sofrimento advém da eliminação total da ignorância e do desapego à ganância e aos desejos, alcançando um estado de suprema bem-aventurança ou nirvana, onde todos os sofrimentos são extintos.

4. O Caminho que leva à Cessação do Sofrimento.

O caminho que leva à cessação do sofrimento é o Nobre Caminho Óctuplo.

O Nobre Caminho Óctuplo consiste de:
Compreensão Correta. Conhecer as Quatro Nobres Verdades de maneira a entender as coisas como elas realmente são.
Pensamento Correto. Desenvolver as nobres qualidades da bondade amorosa e da aversão a prejudicar os outros.
Palavra Correta. Abster-se de mentir, falar em vão, usar palavras ásperas ou caluniosas.
Ação Correta. Abster-se de matar, roubar e ter conduta sexual indevida.
Meio de Vida Correto. Evitar qualquer ocupação que prejudique os demais, tais como tráfico de drogas ou matança de animais.
Esforço Correto. Praticar autodisciplina para obter o controle da mente, de maneira a evitar estados de mente maléficos e desenvolver estados de mente sãos.
Plena Atenção Correta. Desenvolver completa consciência de todas as ações do corpo, fala e mente para evitar atos insanos.
Concentração Correta. Obter serenidade mental e sabedoria para compreender o significado integral das Quatro Nobres Verdades.

Aqueles que aceitam este Nobre Caminho como um estilo de vida viverão em perfeita paz, livres de desejos egoístas, rancor e crueldade. Estarão plenos do espírito de abnegação e bondade amorosa.
As seis perfeições

As Quatro Nobres Verdades são o fundamento do Budismo e entender o seu significado é essencial para o autodesenvolvimento e alcance das Seis Perfeições, que nos farão atravessar o mar da imortalidade até o nirvana.

As Seis Perfeições consistem de:
Caridade. Inclui todas as formas de doar e compartilhar o Dharma.

Moralidade. Elimina todas as paixões maléficas através da prática dos preceitos de não matar, não roubar, não ter conduta sexual inadequada, não mentir, não usar tóxicos, não usar palavras ásperas ou caluniosas, não cobiçar, não praticar o ódio nem ter visões incorretas.

Paciência. Pratica a abstenção para prevenir o surgimento de raiva por causa de atos cometidos por pessoas ignorantes.

Perseverança. Desenvolve esforço vigoroso e persistente na prática do Dharma.

Meditação. Reduz a confusão da mente e leva à paz e à felicidade.

Sabedoria. Desenvolve o poder de discernir realidade e verdade.

A prática dessas virtudes ajuda a eliminar ganância, raiva, imoralidade, confusão mental, estupidez e visões incorretas. As Seis Perfeições e o Nobre Caminho Óctuplo nos ensinam a alcançar o estado no qual todas as ilusões são destruídas, para que a paz e a felicidade possam ser definitivamente conquistadas.
Tornar-se um Buda

Ao desejar tornar-se budista, deve-se receber refúgio na Jóia Tríplice, como um comprometimento com a prática dos ensinamentos do Buda. A Jóia Tríplice consiste no Buda, no Dharma e na Sangha.

Budistas laicos podem também fazer voto de praticar cinco preceitos em suas vidas diárias. Os Cinco Preceitos são: não matar, não roubar, não ter conduta sexual inadequada, não mentir e não se intoxicar. O preceito de não matar se aplica principalmente a seres humanos, mas deve ser estendido a todos os seres sencientes. É por isso que a Sangha e muitos budistas devotos são vegetarianos. No entanto, não é preciso ser vegetariano para tornar-se budista. O quinto preceito – não se intoxicar – inclui abuso de drogas e álcool. O entendimento deste preceito é uma precaução, por não ser possível manter a plena atenção da consciência e comportamento apropriado quando se está drogado ou bêbado.

Os budistas são incentivados a manter estes preceitos e a praticar bondade amorosa e compaixão para com todos os seres. Os preceitos disciplinam o comportamento e ajudam a diferenciar entre certo e errado. Através do ato de disciplinar pensamento, ação e comportamento, pode-se evitar os estados de mente que destroem a paz interior. Quando um budista incidentalmente quebra um dos preceitos, ele não busca o perdão do pecado por parte de uma autoridade superior, como Deus ou um padre. Ao invés disso, se arrepende e analisa o porquê de ter quebrado o preceito. Confiando em sua sabedoria e determinação, modifica seu comportamento para prevenir a recorrência do mesmo erro. Ao fazer isso, o budista confia no esforço individual de auto-análise e auto-perfeição. Isto ajuda a restaurar paz e pureza de mente.

Muitos budistas montam um altar em um canto tranqüilo de suas casas para a recitação de mantras e a meditação diária. [Um mantra é uma seqüência de palavras que manifestam certas forças cósmicas, aspectos ou nomes dos budas. A repetição contínua de mantras é uma forma de meditação.] O uso de imagens budistas em locais de culto não deve ser visto como idolatria, mas como simbologia. Enfatiza-se o fato de que essas imagens em templos ou altares domésticos servem apenas para nos lembrar a todo momento das respectivas qualidades daquele que representam, o Iluminado, que nos ensinou o caminho da liberação. Fazer reverências e oferendas são manifestações de respeito e veneração aos Budas e Bodhisattvas.
Meditação

A meditação é comumente praticada pelos budistas para obter felicidade interior e cultivar sabedoria, de forma a alcançar a purificação da mente e a libertação. É uma atividade de consciência mental.

A felicidade que obtemos do ambiente físico que nos envolve não nos satisfaz verdadeiramente nem nos liberta de nossos problemas. Dependência de coisas impermanentes e apego à felicidade do tipo "arco-íris" produz somente ilusão, seguida de pesar e desapontamento. Segundo o Budismo, existe felicidade verdadeira e duradoura e todos temos o potencial de experimentá-la. A verdadeira felicidade jaz nas profundezas de nossa mente, e os meios para acessá-la podem ser praticados por qualquer um. Se compararmos a mente ao oceano, pensamentos e sentimentos tais como alegria, irritação, fantasia e tédio poderiam ser comparados a ondas que se levantam e voltam a cair por sobre sua superfície. Assim como as ondas se amansam para revelar a quietude nas profundidades do oceano, também é possível acalmar a turbulência de nossas mentes e revelar pureza e claridade naturais. A meditação é um meio de alcançar isso.

Nossas ilusões, incluindo ciúmes, raiva, desejo e orgulho, originam-se da má compreensão da realidade e do apego habitual à nossa maneira de ver as coisas. Através da meditação, podemos reconhecer nossos erros e ajustar nossa mente para pensar e reagir de maneira mais realista e honesta. Esta transformação mental acontece gradualmente e nos liberta das falácias instintivas e habituais, nos permitindo adquirir familiaridade com a verdade. Podemos, então, finalmente, nos libertar de problemas como insatisfação, raiva e ansiedade. Finalmente, compreendendo a maneira como as coisas de fato funcionam, nos é possível eliminar completamente a própria fonte de todos os estados mentais incômodos.

Assim, meditação não significa simplesmente sentar-se em uma determinada postura ou respirar de uma determinada maneira; estes são apenas recursos para a concentração e o alcance de um estado de mente estável. Apesar de diferentes técnicas de meditação serem praticadas em diferentes culturas, todas elas partilham o princípio comum de cultivar a mente, de forma a não permitir que uma mente destreinada controle nosso comportamento.

A vida humana é preciosa e, no entanto, nós a conseguimos.
O Dharma é precioso e, no entanto, nós o ouvimos.
Se não nos cultivarmos nesta vida,
Quando teremos essa chance novamente?
Características do budismo

Bodhisattva — Um ser iluminado que fez o voto de servir generosamente a todos os seres vivos com bondade amorosa e compaixão para aliviar sua dor e sofrimento e levá-los ao caminho da iluminação. Existem muitos Bodhisattvas, mas os mais populares no Budismo Chinês são os Bodhisattvas Avalokiteshvara, Kshitigarbha, Samantabhadra e Manjushri.

Bodhisattva Avalokiteshvara (Kuan Yin Pu Sa) — "Aquele que olha pelas lágrimas do mundo". Este Bodhisattva oferece sua grande compaixão para a salvação dos seres. Os muitos olhos e mãos representados em suas várias imagens simbolizam as diferentes maneiras pelas quais todos os seres são ajudados, de acordo com suas necessidades individuais. Originalmente representado por uma figura masculina, Avalokiteshvara é, hoje em dia, geralmente caracterizado, na China, como uma mulher.

Bodhisattva Kshitigarbha (Guardião do Mundo) — Sempre usando um cajado com seis anéis, ele possui poderes sobre o inferno. Ele fez o grande voto de salvar os seres que ali sofrem.

Curvar-se em reverência — Este ato significa humildade e respeito. Os budistas se curvam em respeito ao Buda e aos Bodhisattvas e, também, para recordar-se das qualidades virtuosas que cada um deles representa.

Buda — Este é muito mais do que um simples nome. A raiz Budh significa "estar ciente ou completamente consciente de". Um Buda é um ser totalmente iluminado.

Buda Shakyamuni (o fundador do Budismo) — Nasceu na Índia. Em busca da verdade, deixou sua casa e, disciplinando-se severamente, tornou-se um asceta. Finalmente, aos 35 anos, debaixo de uma árvore Bodhi, compreendeu que a maneira de libertar-se da cadeia de renascimento e morte era através de sabedoria e compaixão – o "caminho do meio". Fundou sua comunidade, a qual tornou-se conhecida como Budismo.

Buda Amitabha (Buda da Luz e Vida Infinitas) — É associado com a Terra Pura do Ocidente, onde recebe seres cultivados que chamam por seu nome.

Bhaishajya Guru (O Buda da Medicina) — Cura todos os males, inclusive o mal da ignorância.

Buda Maitreya (O Buda Feliz) — É o Buda do Futuro. Depois de Shakyamuni ter se iluminado, ele é aguardado como sendo o próximo Buda.

Instrumentos do Dharma — Estes instrumentos são encontrados nos templos budistas e são utilizados por monges durante as cerimônias. O "peixe" de madeira é normalmente colocado à esquerda do altar, o gongo, à direita e o tambor e o sino, também à direita, porém um pouco mais distantes.

Incenso — É oferecido com respeito. O incenso aromático purifica não só a atmosfera, mas também a mente. Assim como sua fragrância alcança longas distâncias, bons atos também se espalham em benefício de todos.

Flor de Lótus — Pelo fato de brotar e se desenvolver em águas lamacentas e turvas e, ainda assim, manifestar delicadeza e fragrância, a Flor de Lótus é o símbolo da pureza. Também significa tranqüilidade e uma vida distinta e sagrada.

Mudra – Os gestos das mãos que geralmente se vêem nas representações do Buda, são chamados de "mudras", os quais propiciam comunicação não-verbal. Cada mudra tem um significado específico. Por exemplo, as imagens do Buda Amitabha, normalmente, apresentam a mão direita erguida com o dedo indicador tocando o polegar e os outros três dedos estendidos para cima para simbolizar a busca da iluminação, enquanto a mão esquerda mostra um gesto similar, só que apontando para o chão, simbolizando a libertação de todos os seres sencientes. Nas imagens em que ele aparece sentado, ambas as mãos estão posicionadas à frente, abaixo da cintura, com as palmas voltadas para cima, uma contendo a outra, o que simboliza o estado de meditação. No entanto, se os dedos da mão direita estiverem apontando para baixo, isso simboliza o triunfo do Dharma sobre seres desencaminhados que relutam em aceitar o autêntico crescimento espiritual.

Oferendas — Oferendas são colocadas no altar budista pelos devotos. Fazer uma oferenda permite que reflitamos sobre a vida, confirmando as leis de reciprocidade e interdependência. Objetos concretos podem ser ofertados em abundância, no entanto, a mais perfeita oferenda é um coração honesto e sincero.

Suástica — Foi um símbolo auspicioso na Índia antiga, Pérsia e Grécia, simbolizando o sol, o relâmpago, o fogo e o fluxo da água. Este símbolo foi usado pelos budistas por mais de dois mil anos para representar a virtude, a bondade e a pureza do "insight" de Buda em relação ao alcance da iluminação. (Neste século, Hitler escolheu este símbolo para seu Terceiro Reich, mas inverteu sua direção, o denominou "Suástica" e o usou para simbolizar a superioridade da raça ariana.)

Fo Tzu (Pérolas de Buda) — Também conhecido como rosário budista. É um instrumento usado para controlar o número de vezes que se recita os nomes sagrados do Buda, dos Bodhisattvas ou para recitar mantras. Se usado com devoção no coração, ajuda-nos a limpar nossa mente ilusória, purifica nossos pensamentos e ainda resgata nossa original e imaculada Face Verdadeira. São constituídos de contas que podem ser de diferentes tipos: sementes de árvore Bodhi, âmbar, cristal, olho de tigre, ametista, coral, quartzo rosa, jade, entre outros.
Perda e pesar

Que a vida não é livre de sofrimento, é um fato. Sofremos com o envelhecimento, com as doenças e com a morte. O sofrimento tem de ser tolerado pelos vivos e pelos mortos. O propósito supremo do ensinamento do Buda é fazer-nos compreender a causa do sofrimento e encontrar um meio correto de superá-lo.

O Buda nos disse em seus ensinamentos que toda matéria, vivente ou não-vivente, estava constantemente sujeita a mudanças cíclicas. As coisas não-viventes passam por mudanças de formação, duração, deterioração e desaparecimento, enquanto que as coisas viventes passam por nascimento, doença, envelhecimento e morte. Mudar a todo momento mostra a natureza impermanente de nosso próprio corpo, mente e vida. Esta impermanência que temos de enfrentar é inevitável.

O Buda enfatizou que a principal razão do sofrimento é nosso imenso apego a nosso corpo, que é sempre identificado como "eu". Todo sofrimento brota desse apego ao "eu". Para sermos mais exatos, é a "consciência" que se abriga temporariamente no corpo existente, o qual funciona somente como uma casa. Por isso, a concepção comum de que o "eu" é o corpo físico está equivocada. Ao invés disso, seu corpo atual é somente uma propriedade neste tempo de vida. Quando nossa casa fica muito velha, todos nós adoramos a idéia de mudar para uma nova casa. Quando nossa roupa está muito usada, ansiamos por comprar roupas novas. Na hora da morte, quando a "consciência" abandona o corpo, isso é simplesmente encarado como a troca de uma casa velha por uma nova.

A morte é meramente a separação de corpo e "consciência". A "consciência" continua, sem nascimento ou morte, e busca "abrigo" em um novo corpo. Se entendermos isso, não há razão para lamentações. Ao contrário, deveríamos ajudar os que estão à beira da morte a ter um nascimento positivo, ou, simbolicamente, mudar de casa.

No contexto acima, um relacionamento de família ou de amizade existe em "consciência" mais do que em um corpo físico. Não fiquemos tristes por um filho que estuda do outro lado do mundo, por sabermos que ele está distante. Se tivermos a compreensão correta da verdade da vida e do universo, encararmos a morte como o começo de uma nova vida, e não como um ponto final, sem esperança, poderemos perceber que nossos sentimentos de perda e pesar não passam de ilusões através das quais somos enganados. Lamentar a morte é o resultado da ignorância da verdade da vida e o apego a um corpo físico impermanente.
Oito consciências

No Budismo, aquilo que normalmente chamamos de "alma" é, na verdade, uma integração das oito consciências. As consciências dos cinco sentidos — visão, audição, olfato, paladar e tato – mais a sexta, que é o sentido mental, que formula as idéias a partir das mensagens recebidas pelos cinco sentidos. A sétima é o centro do pensamento (manas) que pensa, deseja e raciocina. A oitava é a consciência ou, como também é chamada, o "armazém" (alaya).

Os primeiros seis sentidos não possuem inteligência fora de sua área de atuação; ao invés disso, eles são reportados a manas sem interpretações. Manas é como um general em seu quartel, juntando todas as informações enviadas, transferindo-as, arranjando-as, e devolvendo ordens aos seis sentidos. Ao mesmo tempo, manas está conectado com alaya. Alaya, o armazém, é o depósito onde as ações do karma são armazenadas desde o início dos tempos. Ações ou pensamentos praticados por uma pessoa são um tipo de energia espiritual, acrescentada a alaya por manas.

As ações armazenadas em alaya ali permanecem até que encontrem uma oportunidade favorável para manifestar-se. No entanto, alaya não pode agir por si mesmo, já que não possui nenhuma energia ativa. O agente discriminador, ou a vontade, é manas, o centro do pensamento, o qual pode agir sobre alaya para que ele desperte de seu estado dormente e seja responsável pelo nascimento de objetos individuais, sejam eles bons, maus ou neutros. Uma pessoa pode ter acumulado incontável karma, positivo ou negativo, em vidas passadas. No entanto, se ela não permitir que ele se manifeste, é como se ele não existisse. É como plantar sementes no solo. Se não houver condições adequadas para seu desenvolvimento, as sementes não brotarão. Assim, se plantarmos boas ações nesta vida, as ações de nosso karma negativo anterior não terá chance de se desenvolver nas atividades discriminadoras. Manas está sempre trabalhando em conjunção com a mente e os cinco sentidos; ele é responsável pelas conseqüências dos desejos, paixões, ignorância, crenças, etc. É absolutamente essencial manter manas funcionando corretamente, de forma a que ele interrompa a criação de karma negativo, e, ao invés disso, deposite boas ações em alaya. Isto é possível, já que manas não tem vontade cega, mas é inteligente e capaz de iluminação. Manas é o eixo ao redor do qual toda a disciplina budista se movimenta.

A morte é o processo de ter essas oito partes da consciência deixando o corpo em seqüência, sendo alaya o último. Isso leva cerca de oito horas para acontecer. Assim, o processo da morte não acaba quando a respiração cessa ou quando o coração para de bater, pois a consciência do ser que morre ainda vive. Quando a consciência deixa o corpo, essa, sim, é a hora real da morte.
Os seis reinos

Apesar de a qualidade do renascimento ser determinada pelo acúmulo total de karma, o estado de mente da pessoa que está morrendo, no momento da morte, está, também, relacionado com seu próximo rumo na transmigração para um dos seis reinos da vida. Os seis reinos da vida incluem seres celestiais, semideuses, seres humanos e três reinos malignos: animais, espíritos famintos e seres infernais. Atitudes incômodas e impróprias por parte das pessoas ao seu redor, como lamentações ou movimentação do corpo, tendem a aumentar a dor e a agonia daquele que está morrendo, causando raiva e apego que, quase sempre, sugam a "consciência" emergente para os reinos malignos. Para ajudar a pessoa que está morrendo, não se deve incomodá-la antes da morte até, pelo menos, oito horas depois da parada da respiração; ao contrário, deve-se ajudá-la a manter a calma e uma mente pacífica, ou oferecer suporte com práticas espirituais tais como recitação de mantras.
Funeral

A prática funeral budista é normalmente conduzida com solenidade. Não se estimula o luto. Um altar simples, com uma imagem do Buda, é montado. Há queima de incenso e oferenda de frutas e flores. Se a família assim o desejar, pode haver monges budistas ministrando bênçãos e recitando sutras e os vários nomes do Buda, juntamente com pessoas laicas. Estes procedimentos podem ser seguidos de um elogio à memória do morto. Certos rituais de luto, como vestir roupas brancas, caminhar com um cajado, lamuriar-se para expressar o grande efeito do seu pesar, queimar dinheiro, casas ou roupas feitas de papel para o morto, são, às vezes, considerados como sendo práticas budistas. Na verdade, esses são costumes tradicionais chineses.

A cremação é prática usual no Budismo – 2.500 anos atrás, o Buda disse a seus discípulos que cremassem seu corpo após a sua morte. No entanto, alguns budistas preferem velar seus mortos. A cremação pode ser escolhida, também, por questões de saúde ou de custo.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A ética e os estereótipos irracionais


Ética é a área da filosofia que estuda o comportamento humano. Portanto, um problema ético de grande relevância e interesse é o preconceito, uma vez que se trata de um comportamento que cria vários problemas práticos para o ser humano. Para o filósofo, ou melhor, no âmbito filosófico, para se tratar do tema, a primeira questão a ser levantada é: o que é ou em que consiste o preconceito?

A resposta que se dará a essa questão aqui tem como base as idéias do filósofo e jurista italiano Norberto Bobbio, cujas posições éticas e políticas costumam ser acolhidas pelos mais diferentes grupos, sejam de direita ou esquerda, por exemplo. Ao analisar o preconceito, Bobbio deixa claro que ele se constitui de uma opinião errônea (ou um conjunto de opiniões) que é aceita passivamente, sem passar pelo crivo do raciocínio, da razão.



O estereótipo
Em geral, o ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, um estereótipo, do tipo "todos os alemães são prepotentes", "todos os americanos são arrogantes", "todos os ingleses são frios", "todos os baianos são preguiçosos", "todos os paulistas são metidos", etc. Fica assim evidente que, pela superficialidade ou pela estereotipia, o preconceito é um erro.

Entretanto, trata-se de um erro que faz parte do domínio da crença, não do conhecimento, ou seja ele tem uma base irracional e por isso escapa a qualquer questionamento fundamentado num argumento ou raciocínio. Daí a dificuldade de combatê-lo. Ou, nas palavras do filósofo italiano, "precisamente por não ser corrigível pelo raciocínio ou por ser menos facilmente corrigível, o preconceito é um erro mais tenaz e socialmente perigoso".


Ao apresentar a base irracional do preconceito, Bobbio levanta a hipótese de que a crença na veracidade de uma opinião falsa só se torna possível por que essa opinião tem uma razão prática: ela corresponde aos desejos, às paixões, ela serve aos interesses de quem a expressa.



Preconceitos coletivos
Bobbio distingue os preconceitos individuais, como as superstições, por exemplo, dos coletivos. Fixa sua atenção nos nestes últimos, porque os primeiros são inócuos, não produzem resultados graves. Ao contrário do que ocorre quando um grupo social apresenta um juízo de valor negativo sobre outro grupo social. Dizer que os homens são diferentes entre si é um juízo de fato, mas, a partir disso, não existem elementos que fundamente juízos de valor que considerem um grupo de homens superior a outro. É precisamente essa diferenciação valorativa que costuma servir de base à discriminação, à exploração, à escravização ou à eliminação de um grupo social por outro.


Racismo no Brasil
O tipo de preconceito mais freqüente em nosso país é o racial. O racismo no Brasil fica mais evidente quando o brasileiro identifica o negro com seu papel social. A constatação, obtida por meio de pesquisa, é da psicóloga e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, Ângela Fátima Soligo.

Em sua pesquisa, a professora pediu aos entrevistados que atribuíssem dez adjetivos aos homens e mulheres negros. Nessa primeira fase, houve equilíbrio. Os pesquisados utilizaram adjetivos positivos para definir os negros, como competentes, alegres, fortes. Em seguida, eles foram estimulados a qualificar esses adjetivos, atribuindo-lhes características.


O resultado final revelou que a maioria dos entrevistados, aí incluídos também os negros, limita-se a reproduzir os chavões sociais. O negro é alegre porque gosta de samba e Carnaval, forte porque se dá bem nos esportes e competente para trabalhos braçais. "O adjetivo é positivo, mas o papel social ligado ao negro mostra um preconceito arraigado na nossa cultura", concluiu a estudiosa.


Mesmo nas exceções, a regra se confirmou. "Houve um entrevistado que disse que o negro pode ser um advogado competente, mas apenas para livrar outros negros da cadeia, isolando-os à condição de bandidos e marginais". A pesquisa reforçou a tese de que o brasileiro pratica um "racismo camuflado": em tese, diz que não tem preconceito, mas prefere limitar as possibilidades e potencialidades da raça negra. Por exemplo, na pesquisa, não houve identificação do negro com o intelectual ou o político.


Os dados da pesquisa foram semelhantes em todos os estados pesquisados, inclusive na Bahia - cuja capital, Salvador, tem população predominantemente negra e esta culturalmente ligada a tradições africanas. Ela apontou que o modelo, a conduta e a história dos brancos são mais valorizados em nossa sociedade. Com isso, os próprios negros acabam incorporando uma imagem negativa sobre sua raça.


O problema do racismo brasileiro é antigo. Tem início por volta do final do primeiro século de colonização, quando os portugueses constataram a impossibilidade de escravizar os índios. O negro, então, foi trazido à força para o país, para servir de escravo nas plantações de cana de açúcar. Independentemente da miscigenação, o negro e os mestiços sempre foram discriminados socialmente no Brasil.


A própria legislação brasileira, durante quase 500 anos, estimulou a discriminação e o preconceito. Nem após a abolição da escravatura e a proclamação da República, o negro deixou de ser discriminado. Só em 1988, com a promulgação da Constituição que está em vigor (art. 5º - inciso XLII), a prática do racismo passou a ser considerada um crime inafiançável e imprescritível.



Nazismo: um regime político racista
O Nazismo ou Nacional-Socialismo foi uma doutrina que exacerbava as tendências nacionalistas e racistas e que constituiu a ideologia política da Alemanha, durante a ditadura de Adolf Hitler (1939-1945). O pensamento nazista apregoava a superioridade cultural e racial dos alemães, que estariam vocacionados a impor-se sobre os outros povos da Europa. Elegeu como seus inimigos ideológicos o liberalismo e o comunismo, que estariam corrompendo as nações européias e pelos quais seriam os responsáveis o povo judeu.

Considerados como uma raça inferior, além de inimigos do regime, os judeus foram inicialmente discriminados e, depois, violentamente perseguidos. Não só na Alemanha mas em todos os países que foram dominados pelo nazismo, a partir de 1939, os judeus tinham seus bens confiscados pelo Estado e eram confinados em guetos. Com o início da guerra, passaram a ser utilizados como escravos. O ápice do projeto nazista para os judeus, entretanto, era a chamada "solução final", ou seja, o extermínio de todos os judeus europeus. Estima-se que seis milhões de judeus tenham sido massacrados pelo nazismo.


Vale, porém, lembrar que o furor do preconceito nazista não se restringiu aos judeus. Outros povos também foram perseguidos, como os ciganos, ou considerados inferiores, como os eslavos. O nazismo também perseguiu e confinou os homossexuais e chegou a instituir um programa de eliminação dos deficientes mentais da Alemanha.


A esse propósito, pode-se apresentar os diversos tipos de preconceitos sociais mais freqüentes, deixando de lado o racismo, já suficientemente comentado:


a) Preconceito quanto à classe social:
Em geral, é a tendência a considerar o "pobre" como um ser humano inferior, em função de sua pobreza, para prevalecer-se dele. A diferença social não pode ser transposta para o plano intelectual ou moral. Neste último, em especial, todos os homens desfrutam e devem desfrutar de uma mesma dignidade.


b) Preconceito quanto à orientação sexual:
Atualmente, é cada vez mais reconhecido, inclusive no aspecto legal, o direito de o indivíduo se relacionar sexual e afetivamente com outro(s) indivíduo(s) do mesmo sexo. A escolha sexual não interfere no caráter e não é obstáculo ao desenvolvimento de qualquer atividade. A homossexualidade (homo = igual), porém, ainda é muito discriminada no Brasil, o que é um resquício da sociedade patriarcal e machista que o país foi até cerca de 40 anos atrás.


c) Preconceito quanto à nacionalidade:
Entre nós, brasileiros, é freqüente tachar os portugueses de burros. Isso também é um vestígio do passado colonial: uma forma de nos vingarmos do povo que naquela época mandava em nosso país. Em São Paulo, no começo do século 20, devido à imigração, havia preconceito contra os italianos, chamados pejorativamente de "carcamanos". Na Argentina, há décadas atrás, os brasileiros eram chamados de "macaquitos", por supostamente imitarem as modas vindas dos Estados Unidos.


d) Preconceito contra deficientes:
Há uma grande diferença entre deficiência e incapacidade. No entanto, não é incomum que os deficientes sejam discriminados, particularmente em termos profissionais. Recentemente, o governo brasileiro tem desenvolvido políticas que visam a integrar o deficiente à sociedade e coibir a discriminação.


Finalmente, você pode estar se perguntando: tudo bem, já está muito claro o que é preconceito, como ele se origina e quais são seus tipos mais freqüentes, mas a questão principal é como acabar com ele? Pois bem, veja a resposta dada pelo próprio Norberto Bobbio:



“Quem quer que conheça um pouco de história, sabe que sempre existiram preconceitos nefastos e que mesmo quando alguns deles chegam a ser superados, outros tantos surgem quase que imediatamente.
Apenas posso dizer que os preconceitos nascem na cabeça dos homens. Por isso, é preciso combatê-los na cabeça dos homens, isto é, com o desenvolvimento das consciências e, portanto, com a educação, mediante a luta incessante contra toda forma de sectarismo. Existem homens que se matam por uma partida de futebol. Onde nasce esta paixão senão na cabeça deles? Não é uma panacéia, mas creio que a democracia pode servir também para isto: a democracia, vale dizer, uma sociedade em que as opiniões são livres e portanto são forçadas a se chocar e, ao se chocarem, acabam por se depurar. Para se libertarem dos preconceitos, os homens precisam antes de tudo viver numa sociedade livre.”